Entremos num consultório médico típico em Portugal hoje. O doente senta-se, ansioso, e começa a descrever o que o trouxe ali. O médico, por sua vez, acena com a cabeça e diz “hum-hum”, mas os seus olhos não estão no doente. Estão fixos no monitor. O som dominante na sala não é a empatia ou o aconselhamento; é o teclar frenético.
Durante a última década, vendemos a “saúde digital” como a grande salvadora do sistema. A realidade, contudo, foi um pouco diferente. Digitalizámos os processos, é um facto, mas no caminho transformámos médicos altamente qualificados e enfermeiros especializados em administrativos de dados de luxo. Ninguém estuda medicina durante mais de uma década para passar 40% do seu dia a navegar em menus de contexto e a preencher campos obrigatórios num Registo de Saúde Eletrónico pouco intuitivo.
A verdadeira inovação, a que estamos a observar agora com interesse estratégico, não passa por adicionar mais ecrãs ou aplicações. Passa por fazê-los desaparecer. Estamos a entrar na era da Inteligência Ambiental (Ambient AI).
O Fim do “Médico Datilógrafo”
A premissa da Inteligência Ambiental na saúde é simples: a tecnologia deve sair do caminho. Em vez de exigir input ativo (clicar, escrever, ditar comandos), a tecnologia recua para o pano de fundo e começa a “ouvir” e a interpretar.
Graças aos avanços recentes em Processamento de Linguagem Natural e IA Generativa, já não estamos a falar de simples gravadores de voz. Falamos de sistemas capazes de distinguir uma conversa trivial sobre o tempo de uma descrição clínica de arritmia, estruturando essa informação em tempo real.
Vejamos exemplos práticos como a Suki ou o DAX da Nuance (Microsoft). O cenário muda radicalmente:
O médico entra na sala e ativa a “escuta” (com o consentimento do doente). A partir desse momento, o computador é ignorado. A consulta decorre como uma conversa humana normal. O médico observa a postura do doente, faz contacto visual, toca onde dói.
Quando a consulta termina e o doente sai, a “magia” logística acontece. O sistema não gravou apenas o áudio; ele gerou uma nota clínica estruturada (no formato padrão SOAP), preparou a prescrição dos fármacos mencionados e codificou o diagnóstico para efeitos de faturação. O médico não escreveu uma linha. Apenas revê o resumo gerado pela IA, corrige algum pormenor se necessário, e assina.
O impacto na gestão hospitalar e na satisfação das equipas é mensurável. Estudos iniciais destas tecnologias apontam para uma redução de até 50% no tempo gasto com documentação. Isto não significa necessariamente que os médicos vão ver o dobro dos doentes, embora ajude nas listas de espera, mas significa que podem ver os doentes atuais com a atenção cognitiva que estes merecem, em vez de estarem mentalmente exaustos pelo peso administrativo.
É como ter um escriba na sala que não precisa de pausas para café, não adoece e conhece todos os códigos CID-10 de cor.
O Paradoxo da Privacidade
Naturalmente, a ideia de um “microfone que tudo ouve” levanta questões no departamento jurídico e nos gabinetes de ética. É uma preocupação válida. No entanto, a segurança destes sistemas empresariais é robusta, operando com encriptação de ponta a ponta e anonimização de dados que muitas vezes supera a segurança física dos nossos hospitais atuais.
Sejamos honestos: hoje em dia, dados clínicos sensíveis são discutidos em corredores movimentados ou apontados em papéis que ficam esquecidos em secretárias. Um sistema digital auditável e seguro pode, ironicamente, oferecer mais privacidade do que as paredes finas de um consultório antigo.
Estamos perante um paradoxo tecnológico interessante. Precisamos da tecnologia mais avançada, modelos de linguagem complexos e capacidade de processamento na cloud, apenas para recuperar a prática mais antiga e fundamental da medicina: a conversa olhos nos olhos.
O foco no setor da saúde não deve ser apenas sobre “mais dados”. Deve ser sobre “melhores dados” recolhidos com menos fricção. O futuro da saúde digital não é um ecrã maior. É um médico que finalmente tem tempo para olhar para o doente.
